segunda-feira, 14 de março de 2011

Artigo: Indicadores quantitativos e qualitativos nos desfiles das escolas de samba. Por Marcelino Tadeu de Assis


A literatura não é conclusiva em relação aos termos ‘quantitativo’ e ‘qualitativo’ quando estamos diante dos indicadores ou de medições. De minha parte uso a expressão “indicadores quantitativos” quando estou avaliando processos ou fenômenos em que o tempo, o custo, a qualidade ou a quantidade são desses processos ou fenômenos derivados, sem que o julgamento pessoal e relativemente subjetivo se faça presente.  

Chamo, por outro lado, de indicadores qualitativos aqueles derivados da percepção humana e potencialmente influenciados – entre outras coisas – por valores, cresças e costumes.  

Quando a ‘pontualidade’ de um profissional é medida pelo relógio de ponto, por exemplo, temos um indicador “quantitativo”. Quando a ‘pontualidade’ é avaliada de uma forma genérica, a partir da expectativa do avaliador, temos um indicador “qualitativo”. 

Lembro-me de uma avaliação “regular” que recebi de duas alunas, uma vez que, para essas alunas, ser pontual era – ao mesmo tempo - ser tolerante com atrasos. No entendimento dessas avaliadoras, um professor pontual deveria, no mínimo, aguardar de 15 a 20 minutos antes do início das aulas, dentro da visão “qualitativa” do indicador. O relógio, no entanto, teria chegado a uma conclusão diferente, dentro da perspectiva “quantitativa”. 

O desfile das escolas de samba – muito visto no Brasil inteiro – é repleto de situações que envolvem indicadores “quantitativos” e “qualitativos”, onde cada uma dessas categorias consideram um amplo conjunto de direcionadores.
 
Indicadores quantitativos: As comissões que avaliam ‘obrigatoriedades’, por exemplo, trabalham com aspectos quantitativos, lógicos e racionais. Nesse contexto é avaliado o tempo mínimo e máximo que a escola permaneceu na avenida, a quantidade de componentes na comissão de frente e na ala das Baianas. Cada variável analisada possui um limite ou parâmetro que, uma vez não observado, gera penalidades contra as quais não há discussão. As referidas comissões cuidam de aspectos objetivos, cujos critérios e formas de aferição foram expressamente definidos e acordados. 

Indicadores qualitativos: Os julgadores dos diversos quesitos, em outro extremo, avaliam aspectos qualitativos, embora dentro dos parâmetros definidos e conceitualmente acordados. “Samba enredo”, “bateria”, “mestre sala e porta bandeira”, “enredo”, “fantasias”, “alegorias e adereços”, “conjunto”, “comissão de frente”, entre outros, integram os aspectos que precisam ser analisados e julgados sob a perspectiva individual. Para assegurar maior integridade ao processo são selecionados cinco julgadores, ao mesmo tempo em que descartadas a menor e a maior nota de cada agremiação, em cada um dos quesitos. Há também a necessidade de se justificar cada ponto (ou décimo de ponto) retirado dos dez iniciais (toda escola de samba entra na avenida com a nota 10). 

Se o quesito “bateria”, por exemplo, fosse avaliado por um metrônomo, por certo não teríamos julgadores. Se a “harmonia” e o “conjunto” fossem julgados por sensores eletrônicos, também não. 

A integridade do processo de avaliação é elemento fundamental e tão dependente do ser humano como os indicadores “qualitativos”. Do contrário, robôs dariam conta desse trabalho.

2 comentários:

Flores da Vasconcelos disse...

O entendimento relativos aos aspectos QUANTITATIVO e QUALITATIVO ajudaria bastante nas colocações e opiniões, tanto do público em geral, quanto dos comentadores contratados pela mídia.
A análise acima contida é de extrema importância e utilidade e deveria ser matéira de primeira página nas edições jornalísticas durante o Carnaval.
Parabéns, Marcelino.
Valmir Barbosa

Eleonora Barbosa disse...

Infelizmente os debatedores e o entrevistado Paulo Barros, carnavalesco da Unidos da Tijuca, do canal TVE, Programa Roda Viva, do dia 21.03, não leram esta matéria.

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